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Pink Floyd & Herman Melville – The Wall e Bartleby – Pontos de Intersecção

julho 17, 2009

wallalbumIntroduzindo o assunto

Há trinta anos o álbum conceitual The Wall era lançado pela banda Pink Floyd, sendo, até a atualidade, considerado pelo público e pela crítica uma das obras mais envolventes do mundo do rock. Um dos principais fatores a explicar esse sucesso atemporal está no conceito criado e desenvolvido por Roger Waters ao longo de todas as faixas desse álbum duplo: uma história que apesar de ser baseada em fatos autobiográficos, adquirem um tom universal ao abordar e criticar questões fundamentais à vida social, como a individualidade, as conseqüências da cega resignação aos paradigmas, traumas e medos cimentados pela sociedade, do isolamento.

Por outro lado, o livro: Bartleby, O Escrivão, Uma História de Wall Street; escrito por Herman Melville no século XIX; narra uma história que traz inúmeras passagens, cenas, idéias, que quando justapostas ao conceito desenvolvido por Roger Waters, possibilitam uma nova interpretação para a vida de um dos personagens mais misteriosos da literatura: Bartleby.

É claro que desvendar com plenitude os motivos que levaram esse protagonista a adotar uma postura tão absurda diante do mundo se constitui uma tarefa impossível, tendo em vista as grandes lacunas interpretativas que o livro apresenta, no entanto, apontar as supostas razões não apenas é palpável, como válido, enquanto tentativa de entender um personagem tão enigmático.

Sobre as Obras

The Wall narra a vida do músico Pink (obviamente, uma alusão ao nome da banda), um personagem que ao se confrontar com uma série de eventos típicos da vida moderna, desperta para questões inerentes ao modo como a humanidade desfila com seus sentimentos, medos, anseios, torpores, censuras… Faixas como: The thin ice; Another brick in the wall; The happiest days of our lives; Mother. Apontam, por exemplo, para a instabilidade dos paradigmas da vida moderna, os traumas adquiridos na infância e criticam a repressão escolar. Enquanto outras canções – Empty spaces; Young lust; Nobody Home; Comfortable Numb – abordam vazios existenciais, as fugas mundanas que logo se revelam inúteis, o distanciamento cada vez maior do mundo e, principalmente, de si mesmo, que afundam Pink numa total desilusão da vida. Assim, processos de ordem mental e social, faixa após faixa do álbum, demonstram as forças que atuam na construção, e depois demolição, do muro criado em torno de sua existência. The Wall é, acima de tudo, uma crítica contundente a vida contemporânea e ao cego aprisionamento aos medos, as censuras, a rotina apática… ditada pela sociedade nas mais diversas fases da vida.

Bartleby_2Já em Bartleby,Uma história de Wall Street, a temática versa sobre a vida de um escrivão que repentinamente decide não mais executar as suas obrigações diárias, no escritório em que foi contratado. Adotando um comportamento estranho e distante de tudo e de todos, Bartleby se torna uma espécie de fantasma no ambiente de trabalho, alguém entregue a uma vida, aparentemente, apática, isolada, e para a qual o narrador da história (o próprio patrão do escrivão) não consegue vislumbrar nenhuma explicação: “Mas Bartleby era uma dessas criaturas a respeito das quais nada se pode averiguar, exceto nas fontes diretas, e estas, no seu caso, eram muito poucas. Aquilo que vi, espantado, com os meus próprios olhos, é tudo o que sei a respeito de Bartleby…”

Para ler a resenha completa desta obra clique: aqui.

Intersecções entre The Wall e Bartleby

A primeira aparição de Bartleby ocorre quando o narrador da história assume o cargo de Oficial do Registro Público e, em razão do aumento considerável de trabalho em seu escritório, necessita contratar um novo escrivão: “Não bastava exigir mais dos meus funcionários, eu necessitava de uma ajuda extra. Em resposta ao meu anúncio, certa manhã, uma jovem inerte apareceu à minha porta, que estava aberta pois era verão. Ainda vejo sua figura: levemente arrumado, lamentavelmente respeitável, extremamente desamparado! Era Bartleby.” Sendo contratado para o cargo de copista, seu patrão o instala num canto, perto da janela, momento no qual se expõe um relevante aspecto simbólico que, apesar do narrador-tendencioso descrever como um local adequado para o trabalho, já assinala algumas características importantes daquele ambiente: “Decidi instalar Bartleby no canto perto das portas dobráveis… Coloquei a sua mesa perto de uma janela pequena nesta parte da sala, uma janela que originalmente tinha vista para alguns quintais sombrios e montes de tijolos, mas que por causa das construções subseqüente, já não oferecia qualquer vista, embora filtrasse alguma luz. Havia uma parede a um metro da janela, e a luz vinha de cima passando por dois prédios altos, como se fosse uma pequena abertura numa cúpula.” (destaque nosso) Dessa forma, o local de trabalho ao sinalizar a predominância da frieza e o crescimento das construções vizinhas, que parecem engolir e encurralar os horizontes dos homens, já aponta para um ambiente estritamente vinculado ao cumprimento das obrigações; a janela do escritório que simbolizaria a possibilidade de vislumbrar algo do mundo exterior ao trabalho, “já não oferecia qualquer vista”; a luz filtrada por dois imensos prédios, apenas permite a visão de “uma parede a um metro da janela”; e a posição da luz, vinda de cima, como uma cúpula, apenas reforça a crítica que Melville pretendeu conferir a rotina do trabalho burocrático contemporâneo. Assim, enquanto o protagonista do álbum The Wall expõe uma vida que desde a infância é entulhada por censuras, traumas, repressões, paradigmas, que cercam sua existência com um muro que o isola do mundo; aqui, a descrição do “canto” em que Bartleby trabalhava e que tinha como vista apenas uma parede é o início de uma crítica análoga, na qual The Wall estará materializado como algo indissociável a vida desse personagem.

Após Bartleby ser contratado, ele assume, no terceiro dia, um comportamento inexplicável aos olhos de todo o escritório. Armado quase sempre com a simples frase: “I would prefer not to”. Bartleby progressivamente se recusa, sem nenhum motivo aparente, a cumprir todas as ordens e, até mesmo, os pedidos mais simples de seu patrão, criando uma situação tão absurda que se torna cômica. No entanto, sua recusa não é uma simples negativa deliberada. Este ao exprimir sua singela preferência por não fazer o que seu patrão pede ou manda, cria um estado de suspensão e estranheza, agravado pelo fato de sua frase ser dita sem nenhuma má intenção, ou rispidez que pudesse ser observada. Assim, o escrivão se recusa, aos poucos, a executar qualquer tarefa do escritório; atitude que o patrão, paralisado pelo espanto e estranheza, não consegue reprimir nem com ameaças de demissão. Mas, afinal, por que Bartleby repele o cumprimento de suas obrigações, quase sempre com a afirmação “I would prefer not to”? Por que é sempre tão vago em suas ações? E por que apenas no terceiro dia de trabalho se recusa sistematicamente a cumprir suas obrigações? Nesse sentido, logo no início do álbum The Wall, a canção The thin ice pode sinalizar alguma direção. Sua letra correspondente ao alerta feito a um bebê (Pink) sobre o que caracteriza a vida moderna e os riscos inerentes a tentativa de atravessá-la: todos os paradigmas e concepções da vida formaram sobre nossos pés uma fina camada de gelo; ao tentarmos atravessá-la carregamos a censura e a projeção de todo o recalcamento alheio; e o quebrar do gelo é tão possível quanto inevitável sob certas circunstâncias. Dessa forma, afundar-se na instabilidade da vida sem o estabelecimento de outras concepções substitutivas, facilmente poderá enclausurar o “ser” na ausência de propósitos. Na tentativa de proteção, comumente são construídos muros a nos isolar, mas que trazem como conseqüência o afastar-se de si mesmo. No caso de Bartleby, a vida parece seguir exatamente esse caminho. O isolamento que se encontra materializado, de forma quase absoluta, em suas relações sociais e a adoção de uma rostos2postura extremamente contempladora, o torna um ser fora do contexto do escritório, um absurdo ambulante: “No dia seguinte, notei que Bartleby não fazia nada além de ficar em frente à janela olhando para a parede, entregue a um devaneio. Quando lhe perguntei por que não escrevia, respondeu que tinha decidido não escrever mais. ” Ora, não é à toa que Bartleby olha tão fixamente para a parede (The Wall). Olhar aquela parede de tijolos é o mesmo que olhar para si. A parede a sua frente é a representação do seu isolamento, cada tijolo que a compõe representa um fardo acumulado em sua mente enfastiada. O seu “canto” de trabalho, ao corporificar o seu estado de isolamento mental, parece despertar uma atenção particular em Bartleby; ele olha para a parede, segundo o narrador, “entregue a um devaneio”, mas o que seria esse devaneio? Seria, talvez, o mesmo que experimentamos ao observar algo estranhamento íntimo, mas, ainda assim desconhecido? Ou será que a representação da parede tão próxima da janela forçou Bartleby a fitar seu recalcamento, através de uma espécie de livre associação de conteúdos mentais reprimidos (técnica  comum na psicanálise)? O fato é que, a partir desse momento, Bartleby afunda numa vida ainda mais contemplativa e distante de todos.

O personagem Pink do álbum The Wall vivencia um isolamento predominantemente mental do mundo, mas com o escrivão Bartleby, o isolamento é ao mesmo tempo físico e mental, conforme é revelado num momento mais adiante do livro: “Examinando o lugar com mais atenção, comecei a desconfiar que Bartleby talvez tivesse se alimentado, se vestido e dormido por algum tempo no meu escritório… Num canto, a almofada do velho e frágil sofá dava a impressão de que alguém havia se deitado ali. Embaixo da sua mesa encontrei um cobertor enrolado; na lareira vazia estava uma lata de graxa e uma escova… Pois, pensei, é evidente que Bartleby tem feito desse lugar a sua moradia, ocupando sozinho um cômodo de solteiro.” E mais adiante, a conclusão desoladora: “Aos domingos, Wall Street é tão deserta quanto Petra; e todas as noites de todos os dias são uma desolação. (…) Nesse lugar Bartleby fizera sua residência; o único espectador da solidão que já vira povoada: uma espécie de Mário, inocente e transfigurado, meditando nas ruínas de Cartago!” Seu patrão se assusta ao constatar a solidão que seu funcionário vivencia, fica chocado com o fato dele conseguir morar no mais frio e solitário de todos os lugares do mundo: o centro financeiro de uma grande cidade, aos finais de semana. No entanto, qual outro local poderia ser mais cômodo para uma mente empedernida pela desilusão? Seu isolamento externo é reflexo de seu isolamento psíquico, os muros físicos que cercam o escritório traduzem bem seu isolamento emocional. E quando o crítico Carone escreve no posfácio do livro – Bartleby, O Escrivão, Uma História De Wall Street – a concepção que Melville pretendeu, assim como Poe em seu conto O Barril Amontillado, invocar uma ação de emparedar, “Prefiro deixá-lo viver e morrer aqui, e depois emparedá-lo”, na verdade, pode-se entender que Bartleby já está, de fato, emparedado.

Também em The Wall uma série de faixas apontam para as causas que contribuíram para o personagem Pink levantar seu muro, no entanto, neste livro de Herman Melville, essa parte do quebra-cabeça não existe. Como é dito logo no início da narração: “Mas Bartleby era uma dessas criaturas a respeito das quais nada se pode averiguar, exceto nas fontes diretas, e estas, no seu caso, eram muito poucas.” Dessa forma, Bartleby não está sujeito a concepções definitivas, mas sim a interpretações. E, nesse sentido, várias são as passagens do álbum The Wall que podem ser extremamente esclarecedoras quando contrapostas as ações de Bartleby. Destaco, por exemplo, alguns versos da terceira parte da canção Another Brick In The Wall: “I have seen the writing on the wall” (Eu vejo a escrita no muro) “Don’t think I need anything at all” (Não acho que precise de qualquer coisa) “No! don’t think I’ll need anything at all” (Não, não acho que eu precise de qualquer coisa) “All in all, it was all just bricks in the wall” (Em suma, foi apenas um tijolo no muro,) “All in all, you were all just bricks in the wall” (Em suma, foi tudo apenas tijolos no muro.). Bem, basta contrapor os versos da canção com as ações do protagonista de Melville que a analogia fica evidente: Bartleby, ao longo de toda narração, está olhando fixamente para alguma parede ou muro (“All in all, it was all just bricks in the wall”), como se nele estivesse a solução do mais importante dos seus problemas, e sempre que é indagado a respeito do descumprimento de suas obrigações, responde com indiferença: “I would prefer not to” (Eu preferiria não), voltando a assumir um comportamento de total abandono em relação ao mundo. Desse modo, sua existência parece vazia, apagada, sem vida: “Olhei atônito para ele e vi que os seus olhos estavam sem brilho e vítreos. (…)” “Sim, Bartleby, fique aí atrás do biombo, pensei eu; não mais o perseguirei; você é inofensivo e silencioso como qualquer uma dessas cadeiras velhas; em suma, nunca me sinto tão sozinho quanto ao saber que você está aqui”. A apatia de Bartleby é tamanha que sua presença chega a ser comparada aos móveis do escritório. Seus olhos (tal como a janela ao seu lado) não inspira qualquer visão de vida. E novamente ao recorrermos às faixas criadas pelo grupo Pink Floyd encontramos indícios que ajudam a entender as ações desse personagem. A canção Comfortable Numb fala da perda da capacidade de agir, do abandono de si mesmo a uma apatia dominante, que usurpa os sonhos da infância e os sentidos. Nela, o personagem Pink, figura central da música, está perdendo seu referencial e pergunta para si mesmo: “Is there anybody in there?” (Há alguém ai?) “Just nod if you can hear me” (Apenas acene se você pode me ouvir) “Is there anyone at home?” (Há alguém em casa?). Questiona-se sobre sua existência. Se, de fato, ele ainda está vivo naquele corpo, ou se já foi engolido pelo confortável entorpecimento que sua vida oferece. No caso de Bartleby, visualiza-se esse mesmo processo de abandono, embora, a narrativa de Melville não forneça maiores subsídios que possibilitem verificar, até qual ponto, Bartleby chega a refletir sobre isso. Dessa forma, Pink, assim como Bartleby, estão enredados num esvaziamento psíquico que provoca o constante enterrar da sua individualidade: “There is no pain, you are receding” “A distant ship’s smoke on the horizon” “You are only coming through in waves” “Your lips move but I can’t hear what you’re saying” (trechos da música Comfortable Numb). O referencial interno está quase totalmente perdido, Pink e Bartleby são incapazes de dialogarem consigo mesmos, e por isso sofrem tanto com a angústia do entorpecimento e da ausência dos sonhos, conforme se apreende da mesma canção Comfortable Numb: “When I was a child” (Quando eu era uma criança) “I caught a fleeting glimpse” (Eu tive uma visão fugitiva) “Out of the corner of my eye” (Pelo canto do meu olho) “I turned to look but it was gone” (Eu virei para olhar, mas tinha desaparecido) “I cannot put my finger on it now” (Eu não posso alcançá-la, agora) “The child is grown” (A criança cresceu) “The dream is gone” (O sonho desapareceu) “And I have become comfortably numb” (E eu me tornei Antonio Veronesecomfortavelmente entorpecido). Sensação análoga a que Bartleby parece experimentar e que paulatinamente se torna mais comum na vida cotidiana: “Hoje em dia um número cada vez maior de pessoas, sobretudo as que vivem nas grandes cidades, sofre de uma terrível sensação de vazio e tédio, como se estivesse à espera de algo que nunca acontece. Cinema e televisão, espetáculos esportivos, agitações políticas podem distraí-las por algum tempo, mas exaustas e desencantadas, acabam sempre por voltar ao deserto de suas próprias vidas. (pág. 212. O Homem e seus símbolos)” Afinal, o nosso adequar-se progressivo a tudo que a sociedade espera que sejamos ou façamos, pode ter como conseqüência mais prejudicial a irreparável submissão do Ego (centro da consciência) a Persona (máscara social) e a abdicação de nossa individualidade. Assim, o muro presente nas duas obras em questão, simboliza, também, a incapacidade de estabelecer uma comunicação com anseios mais interiores, bem como a acomodação com o recalcamento, o esquecimento, de todos os conteúdos que não se tem coragem de confrontar. O vazio que atinge Pink na música Comfortable Numb é análogo ao de Bartleby, que está cada vez mais entorpecido e distante de todos, como se convicto da inutilidade de todo tipo de relacionamento social: “Mas ele parecia ser sozinho, totalmente sozinho no mundo. Um destroço de naufrágio em pleno Atlântico.” Sim, de fato, ele é um destroço, um corpo amputado de alma, um ser diluído em tantas censuras sociais e concepções prontas e que está impedido de encontrar a si mesmo.

Todavia, a situação de Bartleby se complica ainda mais quando seu chefe, incapaz de expulsar o indesejado funcionário de seu escritório, resolve mudar-se para outro prédio. Quando isso ocorre, Bartleby insiste em manter-se o mais próximo possível de seu antigo local de trabalho, atitude que o novo inquilino não tolera, em razão da má impressão que o protagonista causa a todos que por ali circulam. Bartleby, dessa forma, acaba sendo preso (e que ironia de Melville prender logo esse personagem. Por acaso, existe algo de livre nele?). Mas, na cadeia, Bartleby continua com o mesmo comportamento que tinha no escritório e apesar de algumas visitas de seu antigo chefe – este, apesar de tudo, sempre sentiu uma inafastável pena do protagonista –, fecha-se por completo para o mundo, nega-se inclusive a fazer as refeições, e se entrega a um devaneio ainda mais impenetrável: “Assim o encontrei, sozinho, de pé, no pátio mais silencioso, o seu rosto voltado para um muro alto, enquanto à sua volta, pelas frestas estreitas das janelas da prisão, os olhos dos assassinos e dos ladrões pareciam observá-lo. (…) Os muros ao redor, de assombrosa alvenaria pesava sobre mim com a sua tristeza. Mas uma relva aprisionada brotava macia sob meus pés. Era como no centro das pirâmides eternas do Egito onde, por estranha magia, brotavam nas fendas as sementes deixadas por passarinhos.” Assim, a possibilidade de libertação de Bartleby parece seguir o mesmo caminho da morte. E, de fato, sua vida não dura mais do que alguns dias naquela prisão “Encolhido de um modo estranho na base do muro, com os joelhos levantados e deitado de lado com a cabeça nas pedras frias, estava Bartleby, abandonado. Mas não se mexia. Parei; aproximei-me; inclinei-me sobre ele e vi que seus olhos turvos estavam abertos; mas parecia dormir profundamente.”

Assim, diferente de Pink, Bartleby se auto-executa – idéia presente na música Goodbye Cruel World. Para Bartleby, The Wall apenas pode ser derrubado quando sua vida física também tomba, ambas já parecem tão intimamente ligadas que, apesar daquele muro ser a fonte de todo o seu torpor, nada mais pode ser feito além da libertação através da morte. Suas forças cambaleantes confrontam uma parede por quase toda a narrativa, mas parecem incapazes de provocar qualquer mudança significativa em sua vida. O muro já está alto e próximo demais para ser demolido sem causar graves conseqüências à vida de Bartleby, destruir o muro é o mesmo que se aniquilar, suas ações cotidianas transparecem essa percepção de inutilidade da luta, e a contemplação dos tijolos, a refletir seu fardo inafastável, se torna a única atitude que Bartleby consegue tomar, até o último suspiro.

Considerações Finais

Apesar de serem produzidas em séculos diferentes, várias são as referências que interligam as obras The Wall (de Pink Floyd) com Bartleby, O Escrivão, Uma História De Wall Street (de Herman Melville), como algumas nuances da vida social, a descrição do isolamento humano, os aspectos psíquicos. Os pontos de intersecção entre essas obras ajudam a desenvolver novas interpretações para a vida do personagem Bartleby e esclarecem pontos obscuros, a partir dos fatos da vida do personagem “floydiano”: Pink. A análise da vida de Bartleby enquanto ser encurralado por muros psicológicos e a descrição de suas condutas absurdas, quando somadas aos conceitos presentes em The Wall, mostram claramente que suas ações não são despropositadas mas, muito pelo contrário, representam reflexos de uma vida tão cravada por pressões externas que muito pouco lhe restou enquanto indivíduo. Desse modo, Bartleby, segundo essa interpretação, se torna um quadro curioso de aniquilação da individualidade; o muro é tudo o que há para se contemplar, os tijolos (censuras, medos, paradigmas) são tudo que sua vida conseguiu apreender, ano após ano, coluna após coluna… Parafraseando Hey You  “The wall was too high” “As you can see” “No matter how he tried” “He could not break free” “And the worms ate into his brain”.

Assim, para efeito de interpretação, abre-se mais um espaço ao deciframento dos enigmas desse protagonista de Melville, sem, no entanto, encurralá-lo em conceitos definitivos, afinal sua figura misteriosa inevitavelmente continuará instigando a imaginação dos leitores. Essa é a magia desse personagem, que diz respeito a todos nós. Como o próprio Melville afirma no fim de sua obra: “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!”

***

(As pintura de rostos usadas no texto acima são do artista brasileiro Antonio Veronese, para maiores informações acesse a seção contexto geral deste blog.)

7 Comentários leave one →
  1. julho 19, 2009 3:06 pm

    Caramba… Não li ainda, mas cê mandou ver, ein? Texto ambicioso. Lerei em breve, porque agora estou atoladaço! hehe Desde já, desejo sucesso ao novo blog!

  2. julho 20, 2009 10:22 am

    wow! Mas The Wall não é o seu favorito pelo que você me falou…

    muito da hora o post, só falta mesmo eu ler

    brinks

  3. julho 21, 2009 12:42 am

    Achei impressionante este texto. A escolha dos temas,”The Wall” e o livro “Bartleby, O Escrivão, Uma História de Wall Street”,e a costura
    que fez entre os dois personagens diante de um cenário comum, o muro, traçando analogias e interpretações geniais em torno da questão universal dos limites (psicológicos e/ou reais) à liberdade humana aniquilando qualquer possibilidade de desenvolvimento do homem enquanto ser subjetivo.Pela situação extrema,levada ao absurdo, mobiliza um questionamento profundo sobre o desejo, e como nos colocamos frente à ele, seja numa postura de negação e passividade,
    ou buscando meios de alcançá-lo superando obstáculos e administrando
    frustrações, ou ainda criando soluções criativas.
    Pular o muro, encontrar meios de quebrá-lo, contorná-lo,sonhar e transcender o muro. O muro que nos separa do mundo e onde viemos para vir a ser, tão humanamente divinos, frágeis, falíveis, porém divinos e cheios de possibilidades.

  4. julho 23, 2009 8:06 am

    cresci com esta música…foi muito bom ler
    beijo

  5. setembro 12, 2009 10:04 am

    aguardo outros posts
    beijo

  6. níslei Link Permanente
    março 31, 2011 5:28 pm

    Acabei de ler o livro aqui mesmo no trabalho. Livro esteticamente estranho, com um personagem esquisitaço. Aos existencialistas (principalmente), acho melhor que leiam!

  7. julho 3, 2011 5:17 pm

    de fato caro amigo… (se é posso dizer amigo.rs..) ESSA TUA JUNÇÃO DAS DUAS OBRAS FOI O QUE EU ESTAVA ESPERANDO A TEMPOS. O ALBUM THE WALL PARA MIM É CONSIDERANDO AINDA (COMO TODOS OS OUTROS É CLARO) COMO UM ENIGMA.
    VALEU… PARABÉNS PELA ESCOLHA…NÃO PELO MELVILLE, MAS SIM PELO FLOYD..HEHEHEH…

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